quem pegar um caderno de pensamentos meus provavelmente terá uma impressão muito sombria desses labirintos mentais...
Refleti sobre isso depois de ouvir (ou melhor, ler) um amigo meu comentando sobre como há um certo constrangimento em se escrever feliz alegre e contente. Sobre o que compartilhamos, o que deixamos por aqui.
No meu caso: trata-se de válvula de escape, plain as day. Quase sempre, não escrevo por prazer, por inspiração, para contar uma história, ou por achar que tenho talento. Não acho que o que faço é arte ou poesia. Mas o ato de expressar em palavras, de articular no papel, esse é uma necessidade. Escrevo porque preciso, já falei disso. Preciso tirar de mim coisas que me poluem como piche. Não que fique pura feito neve depois de escrever. Nem ao menos posso dizer que o tormento e a angústia encontram assim algum alívio. Quase nunca.
Porém, posso dizer que estou me esforçando para pegar a caneta mesmo quando nada me aflige. Estou tentando incluir naqueles cadernos cheios de medo, dor e self-loathing alguns momentos de amor e deslumbramento, alguns instantes de serenidade e contemplação, quando me ocorrem.
Nessas carcaças multi-facetadas que somos, há espaço para tudo. Posso ser alguém que quase não levanta da cama para trabalhar, paralisada pelo medo ou apatia. Posso dançar nua ao som de uma música imbecil qualquer do rádio. Posso odiar e hostilizar todos à minha volta e no mesmo dia ser um ombro amigo ou fazer minha mãe rir até doer a barriga. Posso escrever um artigo científico, uma carta multicolorida para uma amiga ou uma passagem erótica do meu caderno. Posso me entupir de lixo industrializado, ficar sem banho por dias e tomar porres homéricos sem sentido, passando a noite com quem nunca mais vi. Posso me alimentar da forma mais exemplar (e realmente apreciar a comida), fazer exercícios e me cuidar sem me sentir obrigada, quase como numa dessas revistas de dar ânsia que fazem “para mulheres”. Já fui e sou tudo isso, e muito mais.
Ainda assim a sensação de falta de propósito permeia a maior parte dos meus dias. Meu descrédito em mim mesma e nas minhas perspectivas futuras me atormenta. Minha solidão auto-imposta em meio a tantas pessoas que se importam comigo me sufoca. A falta de conexão, o desligamento.
Não penso que sou o primeiro ser humano a sentir isso, não é o suposto ineditismo das minhas emoções que me motivou a escrever esses posts.
Ah, a esperança de poder contribuir, de fazer alguma diferença... e a descrença de que isso seja possível...
O que estou tentando (mesmo mesmo) – especificamente com este blog – é ser mais franca, mais sincera. Todos carregam consigo máscaras, escudos e defesas. Os meus são tão reforçados, tão blindados - nunca entendi como me tornei assim. Por muito tempo acreditei que eu poderia resolver tudo comigo mesma, achando que tinha de ser capaz de resolver meus próprios labirintos. Mais gente na equação daria merda. Quanta ingenuidade. Como se a vida (estando sozinha ou não) fosse um puzzle com solução.
Sinto que preciso começar a mudar. Não mais essa rainha do ‘está tudo bem, I’ve got my shit together, I’m cool, sei exatamente o que estou fazendo’. Isso está me corroendo pouco a pouco. Essa covardia de falhar, medo de arriscar, de estar vulnerável. Essa hipocrisia, esse não viver o que digo. Esse não sentir.
Por que o blog com pseudônimo então? Cacete, nem sei o que pensar se alguém que me conhece pessoalmente me reconhecer aqui. Quem sabe eu toque um 'foda-se, fazer o quê?' ou (mais provável) eu fuja.
Baby steps. Bom, está tudo na minha cabeça. Talvez ninguém se incomode com isso. Talvez ninguém leia. Pode ser só uma lenga-lenga para a maioria. Pode não parecer grande coisa. Mas para mim é. ENORME. Vamos em frente.
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